A "fuga" de Flávio e o mau-caratismo da Globo
Sem mandado de prisão, sem foragido, sem entrevista sem cortes: tudo o que o Fantástico escondeu do público para vender a "fuga" de Flávio
Os fatos publicados pelo G1 se confirmam, mas outras fontes trazem informação que muda a leitura e não estava no texto. O que checamos · Ver fontes · Como checamos

Vamos falar sem rodeio: o Fantástico de domingo não fez jornalismo, fez campanha. A reportagem carimbou de “fuga” a viagem de um senador que não tem mandado de prisão contra ele e que, segundo a própria Polícia Federal, não pode ser tratado como foragido. Nós fomos conferir o que a Globo levou ao ar. O que ela deixou de mostrar diz muito mais do que o que mostrou.
A palavra escolhida a dedo
“Fuga” está na linha fina e na legenda da foto. Não é descuido de redação: quem vive de notícia sabe o peso de cada palavra. E a Globo tinha à mão tudo o que precisava para não usar essa. Em 28 de outubro, a PF disse em nota que a decisão de Moraes não autorizava prisão nem vigilância permanente e que restrição a documento não caracteriza condição de foragido. A mesma PF informou que não há registro oficial de saída de Flávio pelos postos migratórios brasileiros. O Poder360 e a CNN Brasil explicaram, com todas as letras, por que ele não se enquadra como foragido.
Nada disso aparece no texto publicado pelo G1. Nenhuma linha.
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Flávio aceitou dar uma entrevista exclusiva à Globo. Pediu uma única condição: que ela fosse exibida na íntegra, sem cortes. Segundo ele, a emissora desistiu. Pense bem nisso. A maior emissora do país não topou deixar o entrevistado falar sem edição. Preferiu montar a história sozinha, com documentos de terceiros, uma van e um ex-agente estrangeiro como tempero, e empurrou a versão do senador para o fim do texto. Flávio diz que a reportagem não lhe deu direito de resposta.
E a resposta dele está aí, para quem quiser ouvir: “Não saí do Brasil, saí pelo Brasil”. Ele afirma que a decisão judicial saiu sete minutos depois do resultado da eleição, chama o caso de perseguição política e diz não se arrepender de nada.
O que só a Globo viu
Os detalhes mais chamativos da reportagem, como as três entradas na Argentina em 40 minutos e o trajeto de van, só o G1 traz. Nós procuramos em outros veículos e nenhum confirmou. Enquanto isso, quem foi citado negou: o advogado Frederick Wassef disse ao próprio Fantástico que nenhuma informação sobre a viagem é oficial e que não houve fuga; Willer Tomaz negou ter emprestado o avião; a Dallas Turismo negou o transporte; e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou qualquer participação dos Estados Unidos.
Não é a primeira vez, e no mesmo caso
Em 28 de outubro, o próprio g1 teve de publicar uma correção: tinha informado que Flávio havia sido alvo de mandado de busca e apreensão em Brasília. Não foi. O STF negou em nota que houvesse qualquer ordem nesse sentido. Errar acontece com qualquer um. Errar sempre para o mesmo lado, no mesmo caso, contra o mesmo nome, é outra coisa.
O que a Globo não contou
- A PF informou que a decisão de Moraes não autorizava prisão, vigilância permanente nem outras cautelares, e que restrições a documentos não caracterizam condição de foragido (Poder360)
- Não há mandado de prisão contra Flávio, e especialistas ouvidos pela CNN Brasil dizem que ele não pode ser considerado foragido (CNN Brasil) (Poder360)
- Segundo a PF, não há registro oficial de saída de Flávio pelos postos migratórios brasileiros (Poder360)
- Flávio aceitou entrevista à Globo desde que exibida sem cortes, e a emissora desistiu, segundo ele (Gazeta do Povo)
- A nota de Flávio: “não saí do Brasil, saí pelo Brasil”, com a denúncia de perseguição política (Metrópoles) (Revista Oeste)
- O próprio g1 publicou correção, em 28 de outubro, por ter dito que Flávio foi alvo de busca e apreensão; o STF negou haver essa ordem (g1)
O que nós pensamos
Jornalismo sério dá o mesmo espaço aos dois lados, usa a palavra certa e corrige quando erra. O Fantástico fez o contrário: carimbou “fuga” onde a PF diz que não há foragido, deixou de fora a nota oficial e recusou ouvir Flávio sem cortes. Para nós, isso tem nome: militância com o logotipo de uma emissora.
A Globo pode escolher a história que quer contar. Nós escolhemos contar a história inteira. E vamos continuar conferindo, matéria por matéria, tudo o que ela publicar.
Afirmação por afirmação
Cada afirmação da matéria do G1, conferida em outros veículos e fontes oficiais.
- Impreciso
Flávio deixou o Brasil depois que o STF determinou a entrega dos passaportes à PF.
Fontes: Poder360, CNN Brasil · O Poder360 e a CNN Brasil confirmam a ordem de entrega dos passaportes, mas a atribuem ao ministro Alexandre de Moraes, não ao STF como colegiado. Segundo a PF, o prazo era de 24 horas e terminou sem a entrega dos documentos. - Só o G1 publicou
Flávio fez três registros de entrada na Argentina em 40 minutos, com passaporte italiano, carteira de motorista e passaporte brasileiro, e dois deles foram cancelados.
Fontes: Poder360 · O Poder360 cita apenas que a imigração argentina registrou a entrada pela Ponte Tancredo Neves e que cerca de 40 minutos depois o grupo embarcou em voo privado. A CNN Brasil confirma o uso do passaporte italiano. Nenhuma fonte traz os três registros nem o cancelamento de dois deles. - Só o G1 publicou
Flávio saiu de Brasília às 5h05 de 27/10 em jato ligado a Willer Tomaz e seguiu de Buenos Aires para Puerto Iguazú, enquanto a família foi por Cascavel e van.
Fontes: Gazeta do Povo · A Gazeta do Povo apenas reproduz a rota do Fantástico e registra que Willer Tomaz negou ter emprestado o avião. Já a Gazeta do Povo, em outra reportagem, fala em trajeto terrestre de Brasília à fronteira. As fontes não confirmam a rota. - Confirmado
A viagem aos EUA foi num jato Gulfstream com escala em Guayaquil e desembarque em Miami em 28/10.
Fontes: CNN Brasil, Poder360, Gazeta do Povo, Revista Oeste · O Poder360 cita voo da Baires Fly para Guayaquil e depois EUA. A Revista Oeste e a Exame confirmam a chegada a Miami na quarta-feira (28). - Confirmado
Rubio negou que os EUA tenham facilitado a saída, e a imprensa americana aponta Jason Miller como organizador do voo.
Fontes: Revista Oeste, Exame · A Revista Oeste e a Exame trazem a fala de Rubio e o relato do New York Times e do Wall Street Journal sobre Jason Miller.
Fontes consultadas 11
- 1g1Três entradas na Argentina em 40 minutos: os bastidores da saída de Flávio Bolsonaro do Brasilg1.globo.com
- 2Poder360Decisão de Moraes não autorizava prisão de Flávio, diz PFpoder360.com.br
- 3CNN BrasilEntenda por que Flávio Bolsonaro não é considerado foragidocnnbrasil.com.br
- 4Poder360Entenda por que Flávio Bolsonaro não é foragido nem exiladopoder360.com.br
- 5MetrópolesEm nota, Flávio alega perseguição política: “Não me arrependo de nada”metropoles.com
- 6Revista Oeste‘Não saí do Brasil, saí pelo Brasil’, diz Fláviorevistaoeste.com
- 7Gazeta do PovoFlávio diz que aceitou dar entrevista, mas pediu a emissora exibição sem cortesgazetadopovo.com.br
- 8Gazeta do PovoFlávio Bolsonaro organiza saída estratégica do Brasil rumo aos Estados Unidosgazetadopovo.com.br
- 9Revista OesteRubio nega que EUA ajudaram Flávio a deixar o Brasilrevistaoeste.com
- 10Agência BrasilAção Popular pede suspensão de salário do senador Flávio Bolsonaroagenciabrasil.ebc.com.br
- 11ExameMarco Rubio nega que governo dos EUA tenha facilitado saída de Flávio Bolsonaro do Brasilexame.com
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